Após resolvidos todos os problemas burocráticos e os outros, de ordem logística, já há uma semana as coisas só têm dado certo.
Tive hoje a terceira aula de Chapei com Savy. As coisas estão indo muito bem, e rapidamente. Finalmente estou conseguindo pegar a técnica da mão direita - tanto a soltura do pulso quanto o melhor modo de segurar a palheta (preciso descobrir o nome que dão para ela). Assim, estou enfim conseguindo fazer uma espécie de trinado que é bem característico do Chapei - achei o mais complicado até agora.
Com isso, estou terminando a primeira canção. Não souberam me passar a transliteração, em Khmer, do nome original. Sei pronunciar, não sei escrever. Outra coisa que preciso descobrir.
Ontem aproveitei que Vithur, parte da administração da ONG, estava indo para Takeo e Kampong Speu e peguei uma carona para visitar as aulas de Smot e de música clássica de casamento (clássica em oposição à moderna, que tem seu conjunto de instrumentos diferente e, portanto, toda uma sonoridade e repertório distintos).
Fomos de carro, num 4X4, e foi ótimo conhecer o interior cambojano. E interior, digo, a caminho de duas vilas que ficam no meio do nada. A primeira, a meia hora de Takeo; a segunda, a quarenta minutos de Kampong Speu. Não têm eletricidade, são vilas minúsculas e deliciosas. Em Takeo conheci o mestre Sok Duch; importantíssimo, pois é quem melhor faz instrumentos e é o mestre virtuoso do Khsae Diev, um instrumento de uma corda com uma cabaça que se encosta no peito esquerdo ao tocar (e é por isso chamado de "heart instrument", como Vithur me contou).
Sok Duch é um excelente construtor de instrumentos e mestre de música de casamento pois toca todos os instrumentos - o que é raro. Inclusive toquei seu Chapei (que, soube mais tarde, o mestre Kong Nay não gosta; acha sua sonoridade 'errada') para sentir a diferença. Corpo mais leve, ressonância bem diferente pela disposição de orifícios minúsculos ao redor do central. Suas cordas ficam mais junta
s e justas nos trastes (estes inteiramente de ossos de vaca, enquanto no meu apenas a parte superior dos trastes é feita de ossos), seu braço é mais estreito e curto. No resultante, para tocar, acaba tendo um pouco mais de rigidez para os dedos. Acho que isso facilitou para mim, ficou mais próximo do violão.
Assisti à essa aula, quatro canções que os alunos tocaram. Jeff, um americano que estava na carona conosco, tocou Khsae Diev em duas das canções. Jeff passou um ano aqui no Camboja por um programa no qual foi selecionado, após se formar em música, fazendo estudos etnomusicológicos e aprendendo o Khsae Diev com Sok Duch. Voltou agora para focar na música de casamento, seu estilo preferido de música Khmer - assim como o meu. Foi inspirador conhecê-lo, já que fez exatamente o que busco fazer. Acho que terei de ir pra fora antes do planejado para poder voltar para o Camboja por um ano, com patrocínio (alguma expressão melhor para 'sponsored'?)
Deixamos Jeff lá, que levou oferendas para seu mestre para matar a saudade de dois anos longe, e partimos para a vila perto de Kampong Speu (a sudoeste de Phnom Penh). A ONG aluga uma espécie de sala dentro duma pagoda bem grande. Smot é música fúnebre e usada em rituais budistas diversos, sempre para voz solo. O texto utilizado é sempre de natureza sagrada, em geral poemas budistas usados em rezas. Os alunos, novíssimos, me impressionaram. Parece algo impossível de se cantar, para mim, e eles, com dois meses de aula, cantam lindamente. Infelizmente a mestra não estava presente, mas ainda assim vale a pena.
O curioso é que a ONG teve de alugar a sala da pagoda, com os monges, pois os Khmer, atualmente, não conseguem lidar bem com Smot. Têm medo, estranham, é como se fosse algo demasiado soturno para se ouvir. É tão incômodo que moradores pedem para que as aulas se cessem.
Curioso, pois é para mim algo sublime; totalmente compreensível que seja ritualística. O estilo é muito usado, também, quando alguém está à beira da morte. Como se o equivalente à última confissão cristã - sem o sentimento de culpa, claro. Acho que parte dessa má digestão sonora do Smot, para os Khmer, deve se relacionar ao regime do Pol Pot e todas as guerras e conflitos que tiveram até recentemente.
Agora é relaxar, deixar meus dedos e palma da mão esquerda se recuperarem - uma bolha gigantesca no dedo indicador, calos no restante - para segunda-feira, quando tenho minha primeira aula de Chapei com o mestre Kong Nay. Também na segunda começo a ensinar notação musical para uma aluna de Pin Peat, Nisa, de dezesseis ou dezessete anos, que é extremamente talentosa e tem mil idéias e projetos para a preservação da música tradicional Khmer - e além de tudo quer estudar composição musical no ensino superior. Pretendo voluntariar na ONG ensinando aos alunos notação musical, porém ainda me pergunto quão válido seria ensinar essa notação específica para quem lida com uma música tão diferente. Acho que coisas teriam de ser mudadas nesse sistema; como um novo sistema, mesmo.
Tentei colocar aqui um vídeo que fiz, no carro, durante a viagem Takeo-Kampong Speu. - não deu. Tento novamente mais tarde.
Muitas coisas me lembraram o Brasil, aqueles lugares "no meio do nada", região central, nordestina, sertaneja... Guimarães Rosa até. "Same same, but different", como os Khmer dizem o tempo todo por aqui.
Tive hoje a terceira aula de Chapei com Savy. As coisas estão indo muito bem, e rapidamente. Finalmente estou conseguindo pegar a técnica da mão direita - tanto a soltura do pulso quanto o melhor modo de segurar a palheta (preciso descobrir o nome que dão para ela). Assim, estou enfim conseguindo fazer uma espécie de trinado que é bem característico do Chapei - achei o mais complicado até agora.
Com isso, estou terminando a primeira canção. Não souberam me passar a transliteração, em Khmer, do nome original. Sei pronunciar, não sei escrever. Outra coisa que preciso descobrir.
Ontem aproveitei que Vithur, parte da administração da ONG, estava indo para Takeo e Kampong Speu e peguei uma carona para visitar as aulas de Smot e de música clássica de casamento (clássica em oposição à moderna, que tem seu conjunto de instrumentos diferente e, portanto, toda uma sonoridade e repertório distintos).
Fomos de carro, num 4X4, e foi ótimo conhecer o interior cambojano. E interior, digo, a caminho de duas vilas que ficam no meio do nada. A primeira, a meia hora de Takeo; a segunda, a quarenta minutos de Kampong Speu. Não têm eletricidade, são vilas minúsculas e deliciosas. Em Takeo conheci o mestre Sok Duch; importantíssimo, pois é quem melhor faz instrumentos e é o mestre virtuoso do Khsae Diev, um instrumento de uma corda com uma cabaça que se encosta no peito esquerdo ao tocar (e é por isso chamado de "heart instrument", como Vithur me contou).
Sok Duch é um excelente construtor de instrumentos e mestre de música de casamento pois toca todos os instrumentos - o que é raro. Inclusive toquei seu Chapei (que, soube mais tarde, o mestre Kong Nay não gosta; acha sua sonoridade 'errada') para sentir a diferença. Corpo mais leve, ressonância bem diferente pela disposição de orifícios minúsculos ao redor do central. Suas cordas ficam mais junta
Assisti à essa aula, quatro canções que os alunos tocaram. Jeff, um americano que estava na carona conosco, tocou Khsae Diev em duas das canções. Jeff passou um ano aqui no Camboja por um programa no qual foi selecionado, após se formar em música, fazendo estudos etnomusicológicos e aprendendo o Khsae Diev com Sok Duch. Voltou agora para focar na música de casamento, seu estilo preferido de música Khmer - assim como o meu. Foi inspirador conhecê-lo, já que fez exatamente o que busco fazer. Acho que terei de ir pra fora antes do planejado para poder voltar para o Camboja por um ano, com patrocínio (alguma expressão melhor para 'sponsored'?)
Deixamos Jeff lá, que levou oferendas para seu mestre para matar a saudade de dois anos longe, e partimos para a vila perto de Kampong Speu (a sudoeste de Phnom Penh). A ONG aluga uma espécie de sala dentro duma pagoda bem grande. Smot é música fúnebre e usada em rituais budistas diversos, sempre para voz solo. O texto utilizado é sempre de natureza sagrada, em geral poemas budistas usados em rezas. Os alunos, novíssimos, me impressionaram. Parece algo impossível de se cantar, para mim, e eles, com dois meses de aula, cantam lindamente. Infelizmente a mestra não estava presente, mas ainda assim vale a pena.
O curioso é que a ONG teve de alugar a sala da pagoda, com os monges, pois os Khmer, atualmente, não conseguem lidar bem com Smot. Têm medo, estranham, é como se fosse algo demasiado soturno para se ouvir. É tão incômodo que moradores pedem para que as aulas se cessem.
Curioso, pois é para mim algo sublime; totalmente compreensível que seja ritualística. O estilo é muito usado, também, quando alguém está à beira da morte. Como se o equivalente à última confissão cristã - sem o sentimento de culpa, claro. Acho que parte dessa má digestão sonora do Smot, para os Khmer, deve se relacionar ao regime do Pol Pot e todas as guerras e conflitos que tiveram até recentemente.
Agora é relaxar, deixar meus dedos e palma da mão esquerda se recuperarem - uma bolha gigantesca no dedo indicador, calos no restante - para segunda-feira, quando tenho minha primeira aula de Chapei com o mestre Kong Nay. Também na segunda começo a ensinar notação musical para uma aluna de Pin Peat, Nisa, de dezesseis ou dezessete anos, que é extremamente talentosa e tem mil idéias e projetos para a preservação da música tradicional Khmer - e além de tudo quer estudar composição musical no ensino superior. Pretendo voluntariar na ONG ensinando aos alunos notação musical, porém ainda me pergunto quão válido seria ensinar essa notação específica para quem lida com uma música tão diferente. Acho que coisas teriam de ser mudadas nesse sistema; como um novo sistema, mesmo.
Tentei colocar aqui um vídeo que fiz, no carro, durante a viagem Takeo-Kampong Speu. - não deu. Tento novamente mais tarde.
Muitas coisas me lembraram o Brasil, aqueles lugares "no meio do nada", região central, nordestina, sertaneja... Guimarães Rosa até. "Same same, but different", como os Khmer dizem o tempo todo por aqui.
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