Tive, na última quarta-feira, minha primeira aula de Chapei com o mestre Kong Nay.
Fui até a casa dele, que fica bem longinho daqui. Sentei numa espécie de tablado que é comum no Camboja, dentro e fora das casas (em especial no interior), com ele já sentado, me esperando. Atrás dele, no canto da parede, dois Chapeis. Seu filho deu a ele um terceiro - sem ossos de vaca, inteiramente de madeira e sem ornamentos. Nisso incluem-se os trastes também. O som fica diferente, e por isso creio que as madeiras utilizadas sejam diferentes.
(O Chapei é sempre feito com três tipos diferentes de madeira, que variam de mestre para mestre, de Chapei para Chapei; uma madeira bem grossa para a caixa de ressonância, uma madeira mais fina que é pregada com parafusos para tampá-la; o braço - pescoço, como é dito no Chapei (Chapei Dong Veng significa "Chapei Pescoço Longo") é feito de uma terceira)
Figura extremamente carismática e sorridente. Começou a tocar a primeira canção, supondo que eu não soubesse. Toquei o começo, ele prosseguia. Então, ainda sem dizer uma palavra, mostrei que sabia boa parte, e ele prosseguiu de onde parei. Passou frases mais longas do que Savy. Após tocar algumas vezes e perceber que decorei o som, ao menos, colocava o seu Chapei à frente e esperava até que eu tocasse tudo, não apenas todas as notas certas no tempo certo, mas também com maior articulação. Toda vez que eu tocava certo e/ou bem, ria alto, como com satisfação, dizendo "ba, ba, ba!" - algo como "sim, sim, sim" em Khmer, para homens; mulheres usam outra expressão.
O que achei muito bom foi o fato de que boa parte das frases, nessa aula, peguei sem o som e a visão do Chapei, mas apenas pela melodia sendo cantada pelo Mestre ou pelo seu filho. Bom que esteja bem familiarizada com o Chapei e seu som. Aliás, o que era uma bolha imensa no meu dedo indicador se tornou um ótimo e grosso calo. Bão, muito bão.
Na sexta-feira peguei um ônibus para Siem Reap. Após uma cansativa viagem de seis horas saí para jantar, sozinha, e dar uma olhada na cidade. Sem todo o barulho de buzinas e o caos de Phnom Penh, mais vazia e limpa. Extremamente turística, porém, o que me incomodou um pouco. Os preços

eram mais caros, até mesmo para a comida de rua, todos falavam inglês melhor que em Phnom Penh e o tempo inteiro tuk-tuks cheios de ocidentais indo para os templos.
No sábado de manhã liguei para Sambor, parte da organização da ONG em Siem Reap, e combinamos de assistir à aula de música clássica de casamento com o mestre Man Men numa vilinha. Estilo diferente das aulas do mestre Sok Duch, todos os instrumentos tocam com dinâmica forte. Foi a primeira vez que de fato percebi diferença de dinâmica num mesmo gênero de música Khmer, por questão de estilo. Os outros gêneros ou são fortes o tempo inteiro, como Pin Peat e Chapei, ou sempre mais suaves, como o Smot.
A formação, claro, é a mesma. Man Men, como Sok Duch, constrói e toca todos os instrumentos do conjunto. O Ksae Diev que na foto é tocado pelo garoto de blusa preta, ele me disse, foi feito para mim, quando tinha pedido para Sambor há um bom tempo. Uma pena que não esteja com o dinheiro para comprá-lo agora...
O que me agradou também nessa diferença estilística é que a voz é também cantada com mais intensidade. A menina da foto, tocando o instrumento percussivo (de madeira e pele de cobra curtida em um suco de manga), canta com uma projeção absurda. Sabe apenas poucas músicas, pois o Mestre Man Men acredita que aprender a cantar muita coisa com essa idade leva à surdez forte e precoce na vida adulta. Não entendi bem de onde vem essa crença, e não souberam me dizer se os outros mestre concordam. Boa coisa a ser perguntada no futuro.
Reparei no Chapei de Man Men e ele, curioso ao saber que estou tendo aulas, deu-me para testar. Mais parecido com o de Sok Duch, mais leve, sem ornamentos, com u

m som mais rústico. Ossos de vacas nas superfícies dos trastes, e quando tentei tocar a primeira canção entendi a questão da mobilidade dos trastes. O Chapei possui duas cordas, porém três tarrachas; a terceira segura uma corda encostada ao longo de todo o pescoço, que passa por todos os trastes por meio de pequenos orifícios. Os trastes são presos ao pescoço com cola, mas a corda serve para o caso de, no meio duma performance, o traste descolar; a corda o segura e a performance é salva.
São os trastes colados, sem muita firmeza, para que se possa movê-los de acordo com o gênero. Na performance solo de Chapei, usa-se todos os trastes. Quando o Chapei é tocado num conjunto, como na música clássica de casamento, menos alturas são usadas. Portanto move-se todos os trastes e o último fica na caixa de ressonância, fora do alcance dos dedos.
Por esse motivo foi impossível passar da quarta frase da primeira canção.
O som acaba sendo mais brilhante, não tanto pela madeira usada, mas porque não usam a palheta que o mestre Kong Nay utiliza. Sok Duch usa uma palheta feita de osso, enquanto Man Men usa uma espécie de dedal, colocado no indicador direito, feito de chifre de búfalo. O som sai mais brilhante e, quando tentei, tive mais agilidade, provavelmente por redistribuir os movimentos, concentrados no pulso, para mais um dedo.
O Mestre deu para mim esse dedal.
No domingo pela manhã fui visitar a aula de Kantoam Ming. São dadas num templo budista um pouco afastado da cidade. Lá,

perto de onde moram os monges, há ruínas de um dos templos como o Angkor Wat e contemporâneos deste.
Kantoam Ming é música tocada em cerimônias fúnebres, alternadamente com o Smot. É tocada por um pequeno conjunto de instrumentos, um de sopro (não faço idéia da transliteração), voz, o conjunto de pequenos gongos, dois gongos grandes e um instrumento de percussão. Na aula que visitei, infelizmente, os alunos de canto e do instrumento de sopro não estavam na cidade. Ouvi então os outros instrumentos sendo tocados, como tocariam normalmente. Música bem lenta, com tempo bastante marcado. As notas e os tempos tocados por esses instrumentos são parecidíssimos , tanto dentro da mesma canção quanto entre si, em canções diferentes. Creio que o caráter repetitivo tenha a ver com a ritualística da coisa. Como a idéia do mantra, da reza budista em que o movimento com o corpo é repetido diversas vezes em devoção e etc.
Agora estou curiosíssima para ouvir Kantoam Ming em seu conjunto completo. E

m especial por ter fixado bem na memória o que é tocado pelos instrumentos percussivos.
Relacionando com o que disse em outro post sobre o Smot: Sambor disse que é muito difícil encontrar alunos de Kantoam Ming; em geral os jovens acham uma música parada, por ser lenta. Não acham divertido, por ser fúnebre, e então não querem tocar. Queria ir numa cerimônia fúnebre (dura de um a três dias) para ver como é, como a música é utilizada, qual a diferença funcional do Kantoam Ming e do Smot.
O Kantoam Ming, como o Smot, utiliza textos budistas que reiteram a naturalidade da morte, por ser parte essencial dentro do ciclo da vida.
Agora, de volta a Phnom Penh, após ver alguns templos, inclusive o Angkor Wat - minha primeira ação realmente turística no Camboja. As ruínas são impressionantes, mas os turistas realmente cansam.
Após resolver mais alguns problemas burocráticos e financeiros, amanhã, de volta às aulas e ao trabalho. Em especial agora que as coisas vão ficando bem claras e se afunilando, na minha cabeça, com relação ao meu projeto. Com as especificidades que tenho em mente já tenho quase um projeto inteiro para escrever.
Fico por aqui, já que é madrugada e há dias não durmo mais de 5 horas numa noite.