sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Primeira aula de Chapei Dong Veng

Tive hoje minha primeira aula de Chapei Dong Veng com Ouch Savy, pupila do mestre Kong Nay.

Ela havia me pedido para levar algumas coisas: frutas, um pano branco, liso, grande e virgem, incensos, velas. Estendeu uma esteira no chão, ajeitou tudo o que trouxe num prato, acendeu uma vela acomodada numa tigelinha com arroz. Deu-me uns 6 incensos juntos para que eu acendesse e desse a ela, num gesto de respeito, pela relação mestre-estudante que estava começando. Pegou os incensos e, enquanto fazia uns buracos nas frutas (que sinceramente não sei o que eram) e pregava os incensos juntos numa das bananas, como nas oferendas budistas, fez uma espécie de reza breve, em Khmer, e só pude identificar meu nome sendo dito algumas vezes.

Achei extremamente bonita a forma com que essa música tradicional é lidada aqui. Não tinha noção de que havia essa pequena cerimônia para se passar adiante a música, como é feito com Yoga, com artes marciais. Justíssimo.

E então a aula começou. Ela afinou o seu Chapei e eu tive de afinar o meu, de prima, de ouvido Não me disse uma palavra. Já tinha noção de que as cordas, iguais, são afinadas com um intervalo de quarta justa entre si - sorte que calhou de ser um intervalo existente no nosso sistema ocidental de música. A música Khmer possui uma escala diferente, e seus intervalos e alturas utilizadas raramente batem com os nossos.
Depois de afinados ambos os instrumentos ela simplesmente olhou pra mim, tocou uma frase e me mandou imitar.
É isso.

Peguei rapidamente; ajudou lembrar das minhas aulas de violão, quando pré-adolescente, pois eu tinha uma preguiça danada de ler partitura e, fingindo que lia, só pegava de ouvido e vendo meu professor tocar.
Ela se preocupou apenas com a minha memória. "Can you remember? You think it's okay if I give you more notes?"

O som ainda está mais ou menos, óbvio; as cordas são grossas, os trastes, feitos de ossos de vaca, são super altos; a corda nunca encosta no braço do Chapei, o que dificulta um pouco meu dedo acostumado com o violão. A mão mexe por inteira ao manipular uma espécie de palheta, feita pela mesma corda do Chapei, dobrada e amarrada. O Chapei, cuja caixa de ressonância é super magrinha e tem um orifício modesto no centro, deve ser tocado sempre com vigor, forte, para que se ouça bem o som.
Foi estranho ter uma aula de música em que o som perfeito e padronizado e etc não é o mais importante. Isso, acho, melhora com o tempo e com umas dicas aqui e acolá. O que importa é a memória, a sua capacidade de decorar uma música inteira de primeira.

Pelo que entendi, conversando com uma menina que toca num Pin Peat ensemble, é assim com música Khmer em geral. No Pin Peat, e creio que no Chapei após certa experiência do aluno, o professor apenas canta a melodia e o aluno tira.
(Eles têm ouvidos muito bons)

Já tenho a próxima aula marcada. Savy disse que tirei mais rápido do que o normal: maravilha!

E lembrei do que ela havia me contado num outro dia: há apenas quatro mulheres que tocam Chapei no Camboja; ela, duas que não conheço e, disse, "agora você".

Sinto como se eu tivesse treze anos de novo e estivesse aprendendo meu primeiro instrumento na vida: animada e emocionadinha.

4 comentários:

Anônimo disse...

Que emoção, Soooofff!!!! Minha heroína, pioneira no Chapei!!!

Ielisavieta disse...

Óun, óun, óun, óun, óóóóun :)

Quero conversar, porra!

Thalita disse...

Fiquei até emocionadinha lendo...
que coisa linda, especial!


E você faz falta aqui, viu? Especialmente nuns dias que passaram...



; )

Adoro você demais, minha querida.

Thalita disse...
Este comentário foi removido pelo autor.