Tive hoje minha primeira aula de Chapei Dong Veng com Ouch Savy, pupila do mestre Kong Nay.
Ela havia me pedido para levar algumas coisas: frutas, um pano branco, liso, grande e virgem, incensos, velas. Estendeu uma esteira no chão, ajeitou tudo o que trouxe num prato, acendeu uma vela acomodada numa tigelinha com arroz. Deu-me uns 6 incensos juntos para que eu acendesse e desse a ela, num gesto de respeito, pela relação mestre-estudante que estava começando. Pegou os incensos e, enquanto fazia uns buracos nas frutas (que sinceramente não sei o que eram) e pregava os incensos juntos numa das bananas, como nas oferendas budistas, fez uma espécie de reza breve, em Khmer, e só pude identificar meu nome sendo dito algumas vezes.
Achei extremamente bonita a forma com que essa música tradicional é lidada aqui. Não tinha noção de que havia essa pequena cerimônia para se passar adiante a música, como é feito com Yoga, com artes marciais. Justíssimo.
E então a aula começou. Ela afinou o seu Chapei e eu tive de afinar o meu, de prima, de ouvido Não me disse uma palavra. Já tinha noção de que as cordas, iguais, são afinadas com um intervalo de quarta justa entre si - sorte que calhou de ser um intervalo existente no nosso sistema ocidental de música. A música Khmer possui uma escala diferente, e seus intervalos e alturas utilizadas raramente batem com os nossos.
Depois de afinados ambos os instrumentos ela simplesmente olhou pra mim, tocou uma frase e me mandou imitar.
É isso.
Peguei rapidamente; ajudou lembrar das minhas aulas de violão, quando pré-adolescente, pois eu tinha uma preguiça danada de ler partitura e, fingindo que lia, só pegava de ouvido e vendo meu professor tocar.
Ela se preocupou apenas com a minha memória. "Can you remember? You think it's okay if I give you more notes?"
O som ainda está mais ou menos, óbvio; as cordas são grossas, os trastes, feitos de ossos de vaca, são super altos; a corda nunca encosta no braço do Chapei, o que dificulta um pouco meu dedo acostumado com o violão. A mão mexe por inteira ao manipular uma espécie de palheta, feita pela mesma corda do Chapei, dobrada e amarrada. O Chapei, cuja caixa de ressonância é super magrinha e tem um orifício modesto no centro, deve ser tocado sempre com vigor, forte, para que se ouça bem o som.
Foi estranho ter uma aula de música em que o som perfeito e padronizado e etc não é o mais importante. Isso, acho, melhora com o tempo e com umas dicas aqui e acolá. O que importa é a memória, a sua capacidade de decorar uma música inteira de primeira.
Pelo que entendi, conversando com uma menina que toca num Pin Peat ensemble, é assim com música Khmer em geral. No Pin Peat, e creio que no Chapei após certa experiência do aluno, o professor apenas canta a melodia e o aluno tira.
(Eles têm ouvidos muito bons)
Já tenho a próxima aula marcada. Savy disse que tirei mais rápido do que o normal: maravilha!
E lembrei do que ela havia me contado num outro dia: há apenas quatro mulheres que tocam Chapei no Camboja; ela, duas que não conheço e, disse, "agora você".
Sinto como se eu tivesse treze anos de novo e estivesse aprendendo meu primeiro instrumento na vida: animada e emocionadinha.
Ela havia me pedido para levar algumas coisas: frutas, um pano branco, liso, grande e virgem, incensos, velas. Estendeu uma esteira no chão, ajeitou tudo o que trouxe num prato, acendeu uma vela acomodada numa tigelinha com arroz. Deu-me uns 6 incensos juntos para que eu acendesse e desse a ela, num gesto de respeito, pela relação mestre-estudante que estava começando. Pegou os incensos e, enquanto fazia uns buracos nas frutas (que sinceramente não sei o que eram) e pregava os incensos juntos numa das bananas, como nas oferendas budistas, fez uma espécie de reza breve, em Khmer, e só pude identificar meu nome sendo dito algumas vezes.
Achei extremamente bonita a forma com que essa música tradicional é lidada aqui. Não tinha noção de que havia essa pequena cerimônia para se passar adiante a música, como é feito com Yoga, com artes marciais. Justíssimo.
E então a aula começou. Ela afinou o seu Chapei e eu tive de afinar o meu, de prima, de ouvido Não me disse uma palavra. Já tinha noção de que as cordas, iguais, são afinadas com um intervalo de quarta justa entre si - sorte que calhou de ser um intervalo existente no nosso sistema ocidental de música. A música Khmer possui uma escala diferente, e seus intervalos e alturas utilizadas raramente batem com os nossos.
Depois de afinados ambos os instrumentos ela simplesmente olhou pra mim, tocou uma frase e me mandou imitar.
É isso.
Peguei rapidamente; ajudou lembrar das minhas aulas de violão, quando pré-adolescente, pois eu tinha uma preguiça danada de ler partitura e, fingindo que lia, só pegava de ouvido e vendo meu professor tocar.
Ela se preocupou apenas com a minha memória. "Can you remember? You think it's okay if I give you more notes?"
O som ainda está mais ou menos, óbvio; as cordas são grossas, os trastes, feitos de ossos de vaca, são super altos; a corda nunca encosta no braço do Chapei, o que dificulta um pouco meu dedo acostumado com o violão. A mão mexe por inteira ao manipular uma espécie de palheta, feita pela mesma corda do Chapei, dobrada e amarrada. O Chapei, cuja caixa de ressonância é super magrinha e tem um orifício modesto no centro, deve ser tocado sempre com vigor, forte, para que se ouça bem o som.
Foi estranho ter uma aula de música em que o som perfeito e padronizado e etc não é o mais importante. Isso, acho, melhora com o tempo e com umas dicas aqui e acolá. O que importa é a memória, a sua capacidade de decorar uma música inteira de primeira.
Pelo que entendi, conversando com uma menina que toca num Pin Peat ensemble, é assim com música Khmer em geral. No Pin Peat, e creio que no Chapei após certa experiência do aluno, o professor apenas canta a melodia e o aluno tira.
(Eles têm ouvidos muito bons)
Já tenho a próxima aula marcada. Savy disse que tirei mais rápido do que o normal: maravilha!
E lembrei do que ela havia me contado num outro dia: há apenas quatro mulheres que tocam Chapei no Camboja; ela, duas que não conheço e, disse, "agora você".
Sinto como se eu tivesse treze anos de novo e estivesse aprendendo meu primeiro instrumento na vida: animada e emocionadinha.
4 comentários:
Que emoção, Soooofff!!!! Minha heroína, pioneira no Chapei!!!
Óun, óun, óun, óun, óóóóun :)
Quero conversar, porra!
Fiquei até emocionadinha lendo...
que coisa linda, especial!
E você faz falta aqui, viu? Especialmente nuns dias que passaram...
; )
Adoro você demais, minha querida.
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